Joaquin Phoenix carrega sozinho um filme que confunde homenagem com empréstimo de ideias

Sinopse: Arthur Fleck trabalha como palhaço de aluguel em uma Gotham suja, falida e sem paciência para quem fica para trás. Ele mora com a mãe, sonha em subir ao palco como comediante e sofre de uma condição que o faz rir nos piores momentos. A cidade em greve e o abandono dos serviços públicos vão empurrando esse homem para um lugar sem volta.
Coringa chegou em 2019 cercado de pânico moral e saiu com o Leão de Ouro de Veneza e dois Oscars no bolso. Todd Phillips, até então conhecido pela comédia de Se Beber Não Case, trocou de registro para fazer um estudo de personagem no molde do cinema americano dos anos 70. O resultado é um filme tecnicamente impecável e intelectualmente mais raso do que a sua própria pose sugere. Ainda assim, há aqui uma atuação que justifica o ingresso por conta própria.
Todd Phillips e a Gotham dos anos 80
A direção de arte é o segundo maior acerto do filme. Esta Gotham é uma Nova York degradada de começo dos anos 80, com metrô pichado, sacos de lixo acumulados na calçada e luz de néon doente batendo em escadarias de concreto. A fotografia de Lawrence Sher trabalha com cores saturadas e granulação que remetem ao cinema da época sem parecer fantasia de carnaval. A cidade funciona como personagem, e a câmera a observa com uma frieza que serve ao filme.
O problema é que Phillips confunde referência com conteúdo. O filme reproduz a gramática de Taxi Driver e de O Rei da Comédia com tanta fidelidade que em certos trechos parece cover bem ensaiado, e não obra autoral. Quando precisa falar da crise social que usa como pano de fundo, a direção recorre a imagens genéricas de revolta sem nada específico a dizer sobre elas. É uma embalagem de cinema adulto em volta de um conteúdo político frouxo.
Joaquin Phoenix em transformação física e vocal
Joaquin Phoenix não interpreta Arthur Fleck, ele reconstrói o corpo do personagem. O emagrecimento extremo deixa as costas curvadas e as costelas à mostra, e o ator usa isso como instrumento: o jeito de dançar, de se sentar, de ocupar o canto da sala. A risada compulsiva é o truque mais difícil do papel, porque poderia virar número de efeito e nunca vira. Em várias cenas dá para ver a dor física do riso antes de ouvir o som.
Ao redor dele, o filme é mais desigual. Robert De Niro cumpre a função de apresentador de televisão com eficiência, mas o papel pouco exige dele além da presença simbólica. Zazie Beetz e Frances Conroy têm momentos bons e personagens construídos quase só em relação ao protagonista. É um filme de ator único, e isso cobra seu preço na textura dramática do conjunto.
A trilha de Hildur Guðnadóttir e o ritmo de escalada
A trilha de Hildur Guðnadóttir é a melhor decisão criativa do filme e rendeu a ela o Oscar de melhor trilha original. Construída em torno de cordas graves, principalmente violoncelo, a música é lenta, pesada e triste em vez de ameaçadora. Essa escolha muda a leitura de cenas inteiras: onde o roteiro pede caos, a trilha insiste em luto. É ela que empresta ao filme a dignidade emocional que o texto não consegue sustentar sozinho.
A montagem acompanha um desenho de escalada bastante clássico, com cada humilhação empurrando o personagem um degrau abaixo. Funciona, mas é previsível, e o filme perde ritmo em um segundo ato que repete a mesma informação várias vezes. Quando a tensão aperta de verdade, perto do fim, a condução é segura e eficiente. O problema não é a execução, é a falta de surpresa no desenho da curva.
Vale a pena assistir Coringa?
Vale pela atuação de Joaquin Phoenix e pelo acabamento técnico, que estão em outro patamar. Coringa é um dos filmes derivados de histórias em quadrinhos mais bem realizados do ponto de vista formal, e fez isso sem efeitos visuais e sem universo compartilhado. Como estudo de um homem que desaba, tem força. Como comentário sobre doença mental e desigualdade, é bem menos inteligente do que acredita ser.
Quem espera filme de super-herói vai se frustrar, e quem espera a radicalidade que a polêmica prometia também. É um drama urbano sombrio, lento, muito centrado em um único rosto. Minha nota é 3,5 de 5: uma atuação de cinco estrelas em um filme de três e meia.
Pontos positivos
- Atuação monumental de Joaquin Phoenix
- Trilha de violoncelo de Hildur Guðnadóttir
- Direção de arte e fotografia impecáveis
Pontos negativos
- Deve demais a Taxi Driver e O Rei da Comédia
- Crítica social rasa e genérica
Coringa é um exercício de estilo muito bem executado que vive quase inteiramente do trabalho de Joaquin Phoenix e da trilha de Hildur Guðnadóttir. O filme imita com talento o cinema americano dos anos 70, mas não tem muito de próprio a dizer. Vale assistir pela atuação, com expectativas ajustadas quanto ao resto.
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Perguntas frequentes sobre Coringa
Quanto tempo dura Coringa?
O filme tem cerca de 122 minutos, pouco mais de duas horas.
Preciso conhecer os filmes do Batman para entender Coringa?
Não. O filme é uma história fechada e não depende de nenhum outro título para fazer sentido, ainda que faça acenos ao universo de Gotham.
Coringa ganhou Oscar?
Sim, venceu nas categorias de melhor ator, para Joaquin Phoenix, e melhor trilha sonora original, para Hildur Guðnadóttir. Antes disso já havia levado o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2019.