Pôster de Aquarius (2016)
Crítica PobreFlix

Crítica: Aquarius

2016 · 2h 25min · Drama

Direção: Kleber Mendonça Filho

Elenco: Sônia Braga, Maeve Jinkings, Irandhir Santos, Humberto Carrão, Carla Ribas

3,5de 5
Bom

Retrato de uma mulher que se recusa a sair de casa, e de um Brasil que trata memória como estorvo

Cena de Aquarius
Cena de Aquarius · Imagem: divulgação

Sinopse: Clara é crítica musical aposentada e mora há décadas no único apartamento ainda ocupado de um edifício antigo em Recife. Uma construtora comprou todas as outras unidades e quer o prédio inteiro. Ela decide não vender, e o filme acompanha o cerco que se fecha em torno dessa recusa.

Aquarius é um filme sobre permanência, e assume o próprio ritmo com uma calma que nem todo espectador vai acompanhar. Kleber Mendonça Filho organiza o drama em torno de uma única decisão, a de não vender um apartamento, e dela extrai um painel sobre classe, memória e violência educada no Brasil contemporâneo. Sônia Braga está em todos os planos e carrega o filme com uma autoridade impressionante. É uma obra adulta, teimosa e um pouco longa demais.

Kleber Mendonça Filho e o cinema da memória material

O filme se interessa por objetos: discos, móveis, cômoda, parede, escada. Essa atenção não é decorativa, porque o argumento central é que a memória está grudada nas coisas e nos lugares, e que demolir um prédio é apagar um arquivo. A estrutura em capítulos reforça essa ideia ao organizar o tempo em camadas, do passado ao presente.

A construtora nunca é retratada como vilania caricata, e essa é a melhor decisão do roteiro. A pressão chega por cordialidade, reunião, sorriso e proposta razoável, e é exatamente nesse verniz de civilidade que o filme encontra seu veneno. A violência de classe aparece em gestos mínimos, no modo de tratar o porteiro ou de ignorar uma recusa.

O preço dessa abordagem é o ritmo. O filme se demora em cenas que já cumpriram sua função dramática, e o segundo ato acumula situações de reiteração. Com vinte minutos menos, o impacto seria maior.

Sônia Braga em um papel de carreira

Clara é construída sem qualquer apelo de simpatia fácil. É elitista em certos momentos, autoritária com a família, inflexível por princípio, e Sônia Braga não suaviza nada disso. A atriz sustenta planos longos apenas com postura e olhar, e constrói uma mulher cuja dignidade não depende de estar certa. É um trabalho de corpo inteiro, atento à presença física de uma mulher de sessenta e tantos anos que o cinema costuma apagar.

O elenco de apoio trabalha em registro mais baixo e isso é proposital. Maeve Jinkings e Humberto Carrão dão à família uma tensão de bastidor que cresce em cada reunião, enquanto Irandhir Santos aparece em participação curta e precisa. Carla Ribas, como a trabalhadora doméstica da casa, segura uma das relações mais complexas do filme, e o roteiro tem a honestidade de não resolver essa complexidade.

O apartamento, o som e o Recife como paisagem de classe

O apartamento é filmado como território, com geografia sempre legível: sabemos onde fica cada porta, como se chega à praia, que ruído sobe do andar de cima. Essa clareza espacial é o que permite ao filme transformar barulho em ameaça e silêncio em alívio. A direção de arte constrói uma casa que parece habitada há quarenta anos, não montada para a câmera.

A música tem papel narrativo, não ilustrativo. Clara é crítica musical, e os discos que ela coloca para tocar funcionam como testemunho e como arma. O Recife que aparece pela janela, com a orla verticalizada e os prédios novos em volta, completa o argumento sem precisar de uma única linha de diálogo explicativo.

Vale a pena assistir Aquarius?

Vale para quem aceita um drama de ritmo lento e construção acumulativa. O filme oferece um dos melhores desempenhos femininos do cinema brasileiro recente e uma reflexão rigorosa sobre especulação imobiliária, memória e o modo brasileiro de exercer poder com boas maneiras. É cinema para adultos, sem pressa de agradar.

Quem busca conflito explícito ou avanço narrativo constante vai se impacientar, e com alguma razão: há gordura evidente no segundo ato. O filme também exige certa paciência com uma protagonista pouco amável. Em troca, deixa marca duradoura, principalmente na capacidade de fazer o espectador olhar para o próprio prédio de outra forma.

Pontos positivos

  • Sônia Braga em desempenho monumental
  • Antagonismo construído por cordialidade, não por caricatura
  • Uso narrativo preciso da música e do espaço

Pontos negativos

  • Segundo ato longo e repetitivo
  • Alguns conflitos familiares ficam apenas esboçados
Veredito · 3,5/5

Aquarius é um drama de resistência construído com rigor, inteligente sobre classe e memória, e dominado por uma atriz em plena forma. Perde força por excesso de duração, mas o essencial permanece de pé.

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Perguntas frequentes sobre Aquarius

Quanto tempo dura Aquarius?

Cerca de 145 minutos, pouco menos de duas horas e meia.

Onde se passa Aquarius?

Em Recife, Pernambuco, principalmente em um edifício antigo junto à orla de Boa Viagem.

Aquarius foi exibido em Cannes?

Sim. O filme integrou a competição principal do Festival de Cannes de 2016.

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