A comédia popular brasileira em seu melhor acabamento, com dupla cômica afiada e texto de Suassuna preservado

Sinopse: No sertão paraibano, João Grilo e Chicó se viram como podem com mentiras, trapaças e muita lábia, driblando padre, patroa, padeiro e cangaceiro. Cada golpe improvisado cria um problema maior que o anterior. Entre uma confusão e outra, o filme vai descambando para um julgamento de ordem bem menos terrena.
Difícil achar comédia brasileira mais bem resolvida que O Auto da Compadecida. Guel Arraes adapta a peça de Ariano Suassuna com respeito ao texto e liberdade no formato, montando um filme que funciona como teatro de rua filmado sem perder a leveza do cinema popular. O elenco entra em sintonia rara, e a graça não envelheceu. É dos poucos filmes nacionais que atravessaram gerações sem precisar de legenda explicativa.
Guel Arraes e a adaptação do texto de Ariano Suassuna
Arraes faz o que poucos adaptadores conseguem: mantém a estrutura e o sabor do original sem transformar o filme em peça registrada em vídeo. A linguagem de Suassuna, com seu ritmo de cordel e sua lógica de folhetim, é preservada quase intacta, e é dela que vem a maior parte da graça. O que Arraes acrescenta é respiro cinematográfico, com episódios encadeados em ritmo de causo contado.
O roteiro assinado com Adriana Falcão e João Falcão organiza o material em blocos que funcionam quase como esquetes, mas sem perder o fio narrativo. Isso dá ao filme um pulso de comédia de situação que facilita a entrada do espectador. O risco é que a estrutura episódica reduza a tensão no meio do caminho, e isso de fato acontece em alguns trechos.
A origem televisiva do projeto, uma minissérie exibida na TV, explica parte do formato. O recorte para a sala de cinema é bem feito, mas quem conhece a versão longa percebe que algumas passagens ficaram comprimidas.
Matheus Nachtergaele e Selton Mello como dupla cômica
A química entre Nachtergaele e Selton Mello é a razão de ser do filme. Nachtergaele constrói João Grilo com uma malandragem rasteira e nervosa, sempre meio passo à frente de todos e meio passo da desgraça. Selton Mello faz de Chicó um covarde encantador, e seu timing de reação é o que amarra as melhores piadas. Nenhum dos dois força a nota, o que em comédia popular é quase milagre.
O elenco de apoio é igualmente bem escalado. Marco Nanini transita entre figuras de autoridade com um prazer visível em caricaturar o poder local, Diogo Vilela dá ao padre uma covardia cerimoniosa muito engraçada, e Virgínia Cavendish encontra na patroa uma vaidade cheia de verdade. Fernanda Montenegro entra em cena na reta final e muda inteiramente o registro do filme com pouquíssimas falas.
Cores saturadas, cenários de feira e o sertão estilizado
A direção de arte opta por um sertão estilizado, de cores fortes e cenários que lembram feira e brinquedo popular. É uma escolha coerente com a origem teatral: ninguém aqui está buscando realismo documental. O figurino e a maquiagem reforçam essa chave, com tipos desenhados de maneira francamente caricatural.
Essa estilização tem um custo. O sertão do filme é bonito e asséptico, bem distante da aspereza que outros filmes nacionais encontraram na mesma paisagem. Para quem espera o Nordeste de Glauber ou de Nelson Pereira dos Santos, a diferença é brusca. A favor do filme, a opção visual casa com o tom de fábula moral e nunca finge ser o que não é.
Vale a pena assistir O Auto da Compadecida?
Vale, e é um dos melhores pontos de partida para quem quer conhecer cinema brasileiro sem passar antes pelo drama social. O filme é engraçado de verdade, tem elenco em ótima forma e preserva um dos textos mais importantes da dramaturgia brasileira em formato acessível. Funciona bem em sessão familiar e sustenta releituras.
Quem busca sofisticação formal ou aspereza realista vai achar o filme simpático demais. A estrutura episódica também desinfla um pouco no segundo ato. Mas o conjunto se mantém de pé com folga, e a reta final dá ao humor um peso moral que poucas comédias brasileiras alcançam.
Pontos positivos
- Dupla central em sintonia cômica perfeita
- Texto de Suassuna preservado com inteligência
- Humor que funciona para todas as idades
Pontos negativos
- Estrutura episódica desinfla a tensão no meio do filme
- Sertão estilizado demais, sem a aspereza do cenário real
O Auto da Compadecida é comédia popular de altíssimo acabamento, que respeita Suassuna e diverte sem apelar. Perde fôlego em alguns blocos, mas segue sendo o melhor cartão de visita do humor brasileiro no cinema.
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Perguntas frequentes sobre O Auto da Compadecida
Quanto tempo dura O Auto da Compadecida?
Cerca de 104 minutos na versão de cinema.
O Auto da Compadecida é baseado em uma peça?
Sim. O filme adapta a peça homônima de Ariano Suassuna, escrita nos anos 1950 e um dos textos centrais da dramaturgia brasileira.
Onde se passa O Auto da Compadecida?
No sertão da Paraíba, em uma pequena cidade do interior nordestino.