Nolan aposta tudo na escala cósmica e acerta mais no pai que vai embora do que na física

Sinopse: Em um futuro de lavouras arrasadas e tempestades de poeira, a humanidade perdeu a capacidade de se alimentar e a paciência para olhar para cima. Um ex-piloto que virou fazendeiro é recrutado para uma missão que pode encontrar um novo lugar para a espécie. Para isso ele precisa deixar os filhos em casa, sabendo que o tempo não vai passar igual para os dois lados.
Interestelar é o filme em que Christopher Nolan tenta juntar o blockbuster de efeitos práticos ao melodrama familiar, e o resultado é tão imponente quanto desequilibrado. A ambição está em cada escolha: câmeras de grande formato, planetas filmados em locações reais, um buraco negro construído com apoio de cálculos de física. O que mantém o filme de pé, porém, é bem mais simples do que relatividade. É a cara de um homem assistindo os filhos crescerem longe dele.
A direção de Christopher Nolan entre o épico e o íntimo
Nolan filma o espaço com uma secura que lembra o cinema de ficção científica dos anos 70, sem o brilho plastificado que virou padrão. A fotografia de Hoyte van Hoytema alterna planos gigantescos de planetas com closes apertados dentro da nave, e essa troca de escala é o motor emocional do filme. O silêncio no vácuo é usado como recurso dramático, não como detalhe técnico. Quando o som volta, ele volta com força.
O problema da direção é a confiança excessiva na explicação. Nolan construiu um filme visualmente autossuficiente e ainda assim coloca personagens descrevendo em voz alta conceitos que a imagem já tinha comunicado. Há cenas inteiras em que alguém explica a dobra do espaço com uma folha de papel enquanto o filme já havia nos convencido pelo plano anterior. É um cineasta que não consegue deixar o público em dúvida, e o excesso de didatismo tira peso do mistério.
Matthew McConaughey e Anne Hathaway sustentam o lado humano
Matthew McConaughey entrega aqui uma das atuações mais fisicamente expressivas da carreira, e a cena em que seu personagem assiste mensagens gravadas de casa é o ponto alto do filme inteiro. O sotaque arrastado e a postura cansada funcionam porque o ator joga contra o heroísmo que o roteiro poderia pedir. Anne Hathaway faz uma cientista menos óbvia do que parece de início, dividida entre método e desejo. Mackenzie Foy, como a filha criança, tem presença suficiente para que a ausência dela doa no resto do filme.
Jessica Chastain assume o arco mais ingrato da história e consegue transformar ressentimento em combustível. Michael Caine faz o papel que costuma fazer em filmes de Nolan, com a autoridade de sempre. Matt Damon aparece em uma participação que mexe com o tom do terceiro ato e é mais interessante do que as reações iniciais sugeriram. O elenco ancora um roteiro que, sem eles, soaria apenas como aula.
Hans Zimmer, o órgão e a montagem paralela
A trilha de Hans Zimmer é construída em torno de um órgão de igreja, escolha que dá ao filme uma gravidade quase litúrgica. Em vez de fanfarras espaciais, Zimmer trabalha com repetição, crescimento lento e silêncios abruptos. A música chega perto de abafar os diálogos em algumas cenas, e isso foi decisão deliberada de mixagem que divide o público até hoje. Em sala grande o efeito é físico; em casa, pode virar incômodo.
A montagem paralela é a maior sacada do filme e também a sua melhor tradução da ideia central. Ao cortar entre o que acontece na nave e o que acontece na Terra, o filme faz o espectador sentir a diferença de passagem do tempo sem precisar de explicação. É nesse recurso, e não nos diálogos de física, que Interestelar realmente ensina algo. Vale notar que as sequências mais aceleradas chegam a comprometer a clareza espacial da ação.
Vale a pena assistir Interestelar?
Vale, e de preferência na maior tela possível, com som decente. Interestelar é um dos últimos blockbusters americanos construídos em cima de ideias e de efeitos práticos em vez de referências, e isso já justifica as quase três horas. O filme funciona como aventura espacial, como melodrama de pai e filha e como experiência sensorial. Quem gosta de ficção científica que leva a própria premissa a sério vai encontrar muito aqui.
A ressalva é que o terceiro ato aposta em soluções que exigem boa vontade do espectador e explica demais o que deveria ficar sugerido. Também é um filme que confunde emoção com volume em certos momentos. Minha nota é 4,0 de 5: grande cinema de espetáculo, com um roteiro que não está à altura da própria direção.
Pontos positivos
- Escala visual impressionante e efeitos práticos
- McConaughey no melhor da carreira
- Montagem paralela que faz sentir a premissa
Pontos negativos
- Diálogos explicativos demais
- Mixagem de som abafa falas importantes
Interestelar é um espetáculo cinematográfico de ambição rara, mais forte no drama familiar do que na ficção científica que anuncia. A direção e a trilha carregam o filme além dos problemas do roteiro. Vale muito como experiência de sala de cinema, mesmo com um terceiro ato discutível.
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Perguntas frequentes sobre Interestelar
Quanto tempo dura Interestelar?
O filme tem cerca de 169 minutos, quase duas horas e cinquenta.
Interestelar é difícil de entender?
A trama exige atenção, mas o filme explica seus próprios conceitos conforme avança e não depende de conhecimento prévio de física. Vale assistir sem interrupções, já que boa parte da informação chega em diálogos rápidos.
Interestelar ganhou Oscar?
Sim, venceu o Oscar de melhores efeitos visuais e concorreu em outras categorias técnicas.