Faroeste sertanejo com veneno político, capaz de misturar gêneros sem perder a pontaria

Sinopse: Num futuro próximo, o povoado de Bacurau, no interior de Pernambuco, enterra sua matriarca e percebe que algo estranho começa a acontecer: o sinal cai, a água falta e a cidade simplesmente desaparece dos mapas. Aos poucos, os moradores entendem que estão sendo observados. O filme acompanha como essa comunidade reage à ameaça.
Bacurau chega misturando faroeste, ficção científica barata dos anos 1970 e crônica política brasileira, e o espantoso é que a mistura se sustenta. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles constroem uma comunidade antes de construir um conflito, e é essa paciência inicial que dá peso ao que vem depois. O filme é raivoso, divertido e bastante violento, às vezes tudo ao mesmo tempo. Também é o retrato mais imaginativo que o cinema brasileiro recente fez do interior do país.
Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles entre gêneros
A estrutura é a de um filme de cerco: primeiro conhecemos o lugar e as pessoas, depois a ameaça se aproxima, por fim há reação. O que os diretores fazem de diferente é dedicar um tempo generoso ao primeiro movimento, apresentando escola, posto de saúde, museu e bar antes de qualquer tiro. Quando a violência chega, ela atinge gente que o espectador já conhece pelo nome.
A trilha e os efeitos de transição citam abertamente o cinema de gênero dos anos 1970, do faroeste espaguete à ficção científica de orçamento curto. Essas citações nunca são apenas piscadas para cinéfilo, porque ajudam a instalar a lógica de fábula que o filme precisa para funcionar. É um filme que se declara artificial e, por isso mesmo, consegue dizer coisas muito concretas sobre o Brasil.
Nem tudo se encaixa com a mesma elegância. O terceiro ato opta por um exagero deliberado que vai agradar parte do público e afastar outra parte, e algumas figuras antagonistas são desenhadas de forma grosseira. É um exagero consciente, mas exagero.
O elenco coletivo e a presença de Sônia Braga
A grande decisão de elenco é não haver protagonista único. Bárbara Colen entra como fio condutor, mas o filme rapidamente distribui o centro entre vários moradores, e esse desenho coletivo é o que dá ao povoado existência real. Thomás Aquino e Silvero Pereira aparecem em registros bem distintos e ambos funcionam, cada um puxando o filme para um lado do gênero.
Sônia Braga faz a médica da cidade com um misto de autoridade e desalinho que é puro prazer de assistir. Ela bebe, grita, diagnostica e ameaça, muitas vezes na mesma cena, e nunca perde o controle do tom. Udo Kier, do lado oposto do conflito, traz uma frieza burocrática que funciona melhor que qualquer vilania teatral.
Wilson Rabelo e os atores locais completam o quadro com uma naturalidade que a direção soube aproveitar. Há uma textura de comunidade real nesses rostos que nenhuma escalação convencional conseguiria.
Fotografia em Scope, som e a construção do povoado
O filme usa o formato widescreen com intenção clara: o horizonte vazio do sertão vira ameaça, porque qualquer coisa pode aparecer na borda do quadro. Os planos abertos de estrada e caatinga alternam com interiores apertados e quentes, e essa oscilação alimenta a tensão sem precisar de música. É fotografia de gênero bem pensada.
O desenho de som é igualmente decisivo. Zumbidos ao longe, rádios, silêncios artificiais e cortes abruptos de áudio constroem a sensação de vigilância muito antes de o filme explicar o que está acontecendo. O museu da cidade e a caixa d'água funcionam como espaços de memória e de disputa, e a montagem retorna a eles com insistência calculada.
Vale a pena assistir Bacurau?
Vale, principalmente para quem gosta de cinema de gênero com camada política. É um filme inventivo, bem construído e com um sentido de comunidade raro no cinema brasileiro, além de oferecer um dos papéis mais saborosos da carreira recente de Sônia Braga. A primeira hora, dedicada ao povoado, é das melhores coisas do cinema nacional da década.
O espectador precisa estar preparado para violência explícita e para um terceiro ato que abraça o excesso sem pedir desculpas. Quem procura realismo ou sutileza alegórica vai torcer o nariz em mais de um momento. Para quem aceita o jogo, é uma das experiências de sala mais eletrizantes do período.
Pontos positivos
- Primeira hora de construção de comunidade exemplar
- Sônia Braga em registro delicioso
- Uso inteligente de som e de formato widescreen
Pontos negativos
- Antagonistas desenhados de forma grosseira
- Terceiro ato abraça o excesso e perde parte da sutileza
Bacurau é cinema de gênero com raiva e pontaria, que constrói um lugar antes de destruí-lo e por isso dói. Os excessos do último ato dividem opiniões, mas a invenção e a energia do conjunto compensam com folga.
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Perguntas frequentes sobre Bacurau
Quanto tempo dura Bacurau?
Aproximadamente 131 minutos, cerca de duas horas e dez minutos.
Bacurau ganhou prêmio em Cannes?
Sim. O filme recebeu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2019, dividido com outro título da competição.
Onde se passa Bacurau?
Em um povoado fictício chamado Bacurau, no sertão de Pernambuco, situado em um futuro próximo não especificado.